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Os limões do mercado de trabalho e o valor do salário

Os limões do mercado de trabalho e o valor do salário

por Eric Daniel Prando George Akerlof ficou conhecido pela sua publicação sobre o problema dos limões, que basicamente explica como a assimetria de informação tem um efeito negativo no mercado. Seu texto gira em torno da noção de que a incerteza com relação à qualidade de um bem tende a fazer com que o preço de mercado desse bem seja mais baixo. A situação é exemplificada com uma compra de carro usado, onde um comprador leigo pode comprar carros em bom ou em mal estado. Sem conhecimento mecânico suficiente para avaliar quais dos carros estão em bom estado, o comprador acaba atribuindo a todos os carros um valor médio entre o de um carro bom e um ruim e este passa a ser seu limite de preço. Este limite faz com que os vendedores, por sua vez, retirem os melhores carros daquela loja, dado que seu valor é maior que o limite de preço dos clientes. Sem os carros bons, a percepção de valor médio passa a ser menor ainda, forçando o valor dos carros da loja para baixo em um círculo vicioso. A saída óbvia seria conseguir repassar a informação correta sobre a qualidade de cada carro a cada comprador, eliminando a assimetria de informação. A conclusão do artigo é que a diferença de qualidade de produtos reduz seu preço médio final, o que é válido e explica a grande energia gasta por montadoras e outras empresas em seus processos de garantia de qualidade. Quanto maior a quantidade de defeitos que saem da linha de montagem, menor terá que ser o preço médio cobrado por cada carro. Se diferenças de nível de informação afetam preços, podemos fazer uma apropriação do conceito para avaliar o nível dos salários no mercado de trabalho, e dizer que a assimetria de informação sobre a capacidade dos trabalhadores reduz os salários médios, pois tendem a uma média com base no desempenho médio e desestimulam a alta produtividade daqueles trabalhadores que sabem render mais que essa média. Temos que fazer um pequeno esforço para considerar o trabalho de pessoas como produtos, mas é exatamente essa relação que existe, sendo que o trabalho é um serviço que as empresas compram com o salário que pagam. No mercado de trabalho isso funcionaria com o seguinte exemplo: dois profissionais buscam o mesmo trabalho, ambos se formaram na mesma faculdade, um era um aluno dedicado que aprendeu bastante e o outro acabou sendo aprovado sem ter desenvolvido muitas novas habilidades. Obviamente que do ponto de vista do empregador o aluno mais capacitado seria preferível, mas só quem possui essa informação são os próprios profissionais. Caso a empresa contrate o mau aluno, as chances de ele não corresponder às expectativas do cargo são maiores, e isso faria com que a empresa percebesse um valor menor no trabalho deste tipo de profissional e reduzisse o salário ofertado para as próximas contratações dele. Ou seja, aquele seu amigo que sempre te pedia uma ajuda na prova acaba tendo um efeito negativo no seu salário. O mercado de trabalho possui algumas ferramentas para reduzir a assimetria de informação sobre quais são as reais habilidades de cada candidato a uma vaga de trabalho, como a entrevista de emprego, a análise de currículo e busca de referências. Estas maneiras de se buscar informação sobre profissionais são limitadas e caras, sendo uma das mais baratas para empresas a avaliação educacional do profissional, onde escolas melhores emprestam uma capacidade média maior aos profissionais. Ainda assim, a assimetria é bastante presente, sendo que mesmo profissionais oriundos de escolas prestigiadas apresentam um rendimento bastante variado. Uma ferramenta capaz de mitigar essa situação são as certificações profissionais, que tendem a nivelar o conhecimento e muitas vezes o grau de esforço daqueles que as possuem, dada a dificuldade e complexidade associadas à sua obtenção. Certificações profissionais padronizam o mercado de trabalho, tem o efeito de reduzir a ocorrência de limões e consequentemente trazem o salário médio dos profissionais para cima. Dentre as certificações mais prestigiadas estão o CFA, a OAB, CAIA, CFP. Todas essas certificações abordam uma extensa lista de habilidades necessárias a profissões de elevado nível técnico, e por isso acabam sendo muito bem remuneradas no mercado (nos EUA, onde a informação salarial é mais fácil de se obter, um profissional com CFA ganha entre US$ 45 mil e US$ 165 mil anuais). Quanto mais difícil de se obter uma certificação, mais eficiente será o filtro que ela representa e melhor ela será avaliada pelos empregadores, aumentando o impacto sobre o potencial salarial de seus detentores. Outra certificação vigente é o carimbo de qualidade de instituições respeitadas, onde profissionais que trabalharam em multinacionais ou em empresas de referência em seus setores acabam adquirindo um selo de qualidade por ter conseguido produzir naquele ambiente de alto nível. Da mesma maneira, conseguir uma certificação de uma instituição de ensino respeitada significa ter superado um elevado grau de exigência intelectual, e certificações de instituições menos conhecidas exigirão um esforço maior por parte dos profissionais para provar seu valor. Do ponto de vista econômico, quanto melhor for a informação disponível sobre as habilidades de um profissional, melhor será o processo de compra de trabalho, com efeitos positivos no nível salarial médio das pessoas. Sendo assim, profissionais de sucesso devem buscar aumentar a disponibilização de informações sobre suas capacidades, através de cursos, certificações e recomendações de outros profissionais, e podem até afirmar que fazer isso ajuda até aos demais profissionais do mercado.